As mulheres e a tecnologia

Este artigo vem integrado no tema do mês no Planet Geek – “As mulheres e a tecnologia”.

Existe uma ideia generalizada de que a área das tecnologias é “Mundo de homem” (com letra pequena). Normalmente a razão apontada para isto é “porque as mulheres não têm interesse!”. Sendo que nestas áreas existe uma notável falta de mão de obra especializada e que o desequilíbrio entre sexos é tão grande que as torna pouco saudáveis esta resposta é, por si só, vazia; de alguém que quer despachar a questão. Mais importante é tentar perceber porque é que este problema acontece e como pode ser colmatado. Vou em seguida apontar algumas razões que me parecem ser as mais significativas e nas quais é preciso intervir com rapidez.

Educação
Desde pequenos que homens e mulheres são tratados de forma diferente, em vários campos que não só as tecnologias, mas é particularmente evidente que as meninas raramente são incentivadas a gostar de tecnologias. Há dois pontos diferentes que contribuem para este desincentivo. Em primeiro lugar aquilo que a sociedade espera destas crianças e os brinquedos que lhes são oferecidos, normalmente quem recebe consolas, legos, etc são os rapazes, enquanto as meninas recebem barbies e tachinhos de cozinha (pelo menos no meu tempo era assim). Em segundo lugar, as pessoas que as rodeiam e que mais influenciam a sua maneira de ser. As mães e professoras são quase sempre conhecidas pela sua inaptidão para tecnologias e, pior ainda, assumem-no sempre como algo sem particular relevância. É claro que é sempre possível gostar de determinado assunto, mesmo quando não somos incentivados a fazê-lo, e espero que hoje em dia já ninguém tire o interesse a ninguém só por ser mulher, mas torna-se muito mais difícil ganhá-lo e em especial em idades mais tenras onde as nossas opções são muito influenciáveis e bastante determinantes para o futuro.

Role Models
É claro que existem mulheres que se interessam por tecnologias, mas geralmente tentam evitar a visibilidade. A visibilidade traz muitos problemas, requer muita confiança (tema que irei tratar em seguida), atrai trolls e comentários indesejados “só chegou aqui porque é gaja”, “olha, hoje esqueceu-se de tomar a pílula da boa disposição”, enfim acho que vocês ainda devem conhecer mais comentários assim que eu. O facto é que o modelo de role model é extremamente importante e necessário e é mais fácil estabelecer este tipo de relação com alguém do mesmo sexo. Assim, as meninas crescem sem exemplos de mulheres que tenham sucesso nesta área, antes pelo contrário, os exemplos são a mamã e a professora que, assumidamente, não percebem nada disto! É preciso que, por um lado, as mulheres destes ramos se tornem mais visíveis, e por outro lado que quem se está a iniciar aceite que ter pessoas do sexo oposto como role models não é nenhum bicho de sete cabeças e não se deixem desencorajar por isso.

Pessoas com as quais possam partilhar interesses
Os homens tendem a tornar-se amigos e mentores de outros homens, ou porque acham que as mulheres não vão ter interesse nos assuntos em que eles podem ajudar, ou porque têm medo de sofrer represálias do tipo “pois tás-te a aproximar da gaja né, o que tu queres sei eu…”. Enfim, não sei bem que razões é que levam a que isto aconteça mas não me admirava muito que fosse uma destas. Isto dificulta as coisas porque é difícil para uma mulher encontrar outras com as quais possa partilhar interesses nestas áreas e se os homens também se afastam as coisas complicam-se.

Confiança
O legado do “as mulheres não percebem nada disto” faz com que elas tendam a subestimar as suas capacidades e sejam menos confiantes. Eu vejo isto todos os dias, principalmente nas pessoas mais novas. A confiança no trabalho que desenvolvemos e no nosso valor é uma caracteristica absolutamente necessária tanto para o executar com sucesso, como para não nos atirarmos da ponte.
Até aqui estive a falar do lado “bom” desta caracteristica, mas na área da informática também é notável o seu lado exagerado e idiota. Se há área a qual os seus intervenientes demonstram confiança exagerada e egos inchados é a das tecnologias. Os exemplos mais cómicos são os miudos que são reis da informática porque sabem instalar o MS Windows, o individuo que descobre um formulário que não testa input e acha que amanhã já está a “hackar” a NSA, os pseudo-lispers-wannabe que acham que devem atacar todas as outras linguagens só porque sim mas não sabem muito bem como nem com que argumentos (tentam papaguear os seus role models), as miudas que se metem a escrever artigos em blogs sobre as mulheres e a tecnologia. São vários os exemplos que se podem dar aqui e tipicamente são estas as pessoas que se tornam mais visíveis quando alguém se inicia nestas áreas e ainda não tem a experiência necessária para poder olhar para eles de uma perspectiva crítica. Para as mulheres estas atitudes funcionam, normalmente, como um autentico repelente.

O grande problema das razões que apontei acima, é que isto funciona como um ciclo. Para aumentar o interesse das mulheres em formações tecnológicas é necessário que já existam mulheres de grande visibilidade nesta área. As tentativas de suavizar a informática também não me parecem ser solução nenhuma. É claro que informática não é só jogos, nem programação, nem apropos+man, mas, se tiramos os jogos, a programação, o negócio, ficamos com o que? O tuxpaint? É claro que também existem componentes mais artisticas, biológias e sociais (e tipicamente mais aceites pelas meninas) mas pintar a informática de cor de rosa também não é nada. É preciso resolver o problema mas é pela sua raiz.

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August 1, 2007. floss, mulheres, tecnologia.

3 Comments

  1. Carlos replied:

    Olá, gostei do teu post. Gostaria de aqui descrever um exemplo de sucesso de uma Mulher na área de Informática. Já assisti a uma conferência sua, no Porto, que foi muito boa. Fica aqui o link:

    Heimar Marin RN, PhD

    Felicidades, Carlos.

  2. Susana replied:

    Olá Carlos,

    Não conhecia. Obrigada pelo link. :)

  3. nitrofurano replied:

    Adorei o seu artigo, e é maravilhoso o que as mulheres tem feito até agora em relação ao Open Source – constantvzw.org , por exemplo, é uma organização filantrópica belga (que surgiu e se tem mantido como movimento feminista, fundado por mulheres) que tem feito muito pelo open-source relacionada com o mundo artístico e não só (arquitectura, design, musica, video, cartografia, etc. ), e se não fosse a Miriam Ruiz eu não teria o sdlBasic (projecto em que estive muito activo) oficialmente no Debian e Ubuntu tão cedo. Eu só tenho a agradecer vocês todas! =)

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